31.10.09

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Como dizia o grande Álvaro de Campos,

Vou atirar uma bomba ao destino.


Viagem no metro

Viajo no metro, nas estradas do olhar conheço países, nações, sentimentos, confusões, amores, dissabores. Dizem que os olhos são o espelho da alma.

Um olhar…

Um olhar curioso, misterioso. É na troca de olhares que se descobre o mundo.

Viajo no olhar, percorro todo e todos nesta lata que arranha os ouvidos. São vidas e vidas e vividas e (des)vividas e pessoas. Conheço o mundo aqui, Na solidão de mim mesmo encontro-me mais só no olhar. O olhar desviante, tímido e repressor. Todos eles me deprimem. Olho e volto a olhar na esperança de num olhar me encontrar. Que me veja, que me torne. O metro é momento de olhares. Aprecio cada pessoa pela beleza que tem, porque o ser humano é belo em toda a sua essência. É esplêndido.

É um olhar.

30.10.2009

30.10.09

29.10.09

Honni soit qui mal y pense

À saída da estação de comboios dos Foros da Amora um casal namorava. Olho de relance e continuo. Automaticamente obrigo-me a olhar outra vez, havia qualquer coisa que não estava bem. Perco-me durante dois segundos até perceber o que havia de errado naquele quadro: a rapariga massajava o membro do rapaz (ainda dentro das calças) enquanto ele, com a mão por baixo da camisola da moça lhe afagava o peito direito, e isto tudo ao mesmo tempo que se beijavam alarvemente. Vim para casa a pensar no momento das nossas vidas em que deixaremos de nos admirar com estas coisas: quer porque nos habituamos quer porque com o andar da carruagem elas passarão a ser normais. Na altura não me contive e denunciei-me, como sempre, pelas expressões. Mas não será sempre assim.
Três vivas aos nossos apócrifos!

28.10.09

Sala Nietszche I

d'O Couraçado Potemkin, Sergei Einsenstein (1925)

23.10.09

O falso leitor

Na plataforma da estação de comboios de Entrecampos um homem dos seus quarenta anos lia Hannah Arendt, 'A condição humana' na tradução (excelente, diga-se) da Relógio d'água. Até aqui, ao que parece, nada de mal. Errado: este homem, aparentemente tão culto e bem formado seria aquilo a que George Steiner classificaria como o 'leitor comum' em oposição ao 'leitor incomum'. Eis a representação do segundo:

Filósofo lendo, Jean-Baptiste Chardin, (1734)

Não vou reproduzir a teoria de Steiner (publicada no ensaio 'O leitor incomum' reproduzido em Portugal na obra 'Paixão Intacta', também publicada pela Relógio d'água), não por seu desmérito mas porque me faltam o engenho e a arte para fazê-lo com a mesma mestria em menos espaço e tempo.
Numa estação de comboios pode ler-se Hannah Arendt, mas não pode perceber-se Hannah Arendt. Certas leituras, e quase sempre as melhores e mais penetrantes exigem um tempo e um modo, no fundo a constituição de um cerimonial bem mais que simbólico. Por isso fazem-me confusão as pessoas que gostam de estudar em centros comerciais ou em casa com a música ligada e o computador acesso. Não é apenas uma maneira de ignorar a obra, é também uma maneira de desrespeitar o autor (embora tal não seja possível segundo as teorias hermenêuticas que colocam em primeiro plano o princípio da liberdade e da independência autoral da obra como livro aberto) e a nossa qualidade de leitores. A questão é que uma pessoa que lê Hannah Arendt devia saber tudo isto, pelo simples facto de já ter chegado a tal patamar de erudição. Ao contrário: como uma peste, alastra a má leitura por entre dedicados leitores. Este tipo de erros desculpam-se apenas à avidez de um jovem de vinte anos que crê não ter tempo. De qualquer modo bem nos avisa Nabokov nas suas aulas de literatura: o que lemos assim não apreendemos: teremos que reler. E acrescento eu: trabalhamos em erro para chegar, bem tarde na vida, ao ponto em que podemos dizer: já sei ler.
José António Borges
23 de Outubro. 2009

22.10.09

A Culpa

De quem é a culpa? A culpa é da vontade. Da vontade animal que sai dentro de mim. Rasgando o meu ser puro que se devotou à razão. Essa vontade que sai sem pudor. A vontade de ser, de fazer, de acontecer, de conhecer.
A vontade de morrer. De nascer. Renascer.

Essa culpa, dessa vontade. Essa vontade rebelde que vive dentro de mim. Que escolhe por mim, vive por mim. Sem se reger pelas minhas regras. Ai! Que vontade.

Essa vontade de um beijo. Vontade de ficar e não partir, vontade de crescer sem ficar velho. É tudo culpa dessa vontade.



Já diz na música, “a culpa é da vontade que vive dentro de mim e só morre com a idade, com a idade do meu fim. A culpa é da vontade…”

19.10.09

A feroz punhalada do realismo

Tal como matéria atrai matéria, por forças invisíveis, de ferocidade impar, a vida atrai-nos para a dura realidade.
Um corpo cai pelas forças gravíticas que nele actuam, assim o é quando estamos prostrados no mundo dos sonhos e caímos na realidade que nos rodeia. Realidade essa que continua a ser um sonho.
Andamos sempre a deambular pelo eterno sonho da vida, tropeçando.
Torno-me pedra para não pensar na vida que me rodeia, torno-me inanimado, mas nem isso faz com que deixe de ver o mundo exterior. É no silêncio da minha existência que melhor compreendo que estar só é ser se o melhor espectador da desgraça que nos rodeia. Nem na solidão somos donos da nossa própria vida, porque não somos sós, não somos un(ic)os. A entropia de dois atómos “sozinhos” é maior, do que quando estes estão ligados. A entropia é a desordem. É fácil compreender o porquê da solidão ser a nossa primeira inimiga.
A fuga à realidade é o social. É o lubrificar da mente com momentos plásticos retirados e recortados a partir de verdadeiras imagens que doem. O que é arte senão a tentativa de por belo o feio?
Tropeço mais uma vez na dura realidade. Porque os sonhos só nos iludem por escassos momentos, fugacidade da vida que por si só já é efémera.
Eu sonhei poder mudar. Poder mudar algo, alguém, ou a mim mesmo. Mas como sempre, tropecei. Mais um sonho para poder juntar ao conjunto de elementos infinitos cujo sistema de equações é impossível.

Sonho, caio.

16.10.09

Um empurrãozinho

Aceitam-se inscrições para quem estiver interessado em atirar estes filhos da puta para a fogueira que vão acender. É favor deixar contacto na caixa de comentários.

Antecipadamente grato pela sua colaboração.

15.10.09

Quem sai aos seus...

Nova música de Charlotte Gainsbourg (filha do mítico Serge Gainsbourg), com a participação de Beck na sua formação e produção. Para download gratuito aqui.


14.10.09

Senhor K

Imagine, caro leitor, um modesto homem de negócios. Distinto, não obstante a vulgaridade. Rotundo, espaçoso, volumoso, ainda assim célere no traje, impecável no corte e lapidar nos asseios indispensáveis a alguém da sua condição e estatuto. O sujeito em questão, chamemos-lhe Senhor K (o "Processo" acorre como base de sustentação existencial deste conto absurdo), por força da distância entre a sede de trabalho onde se dedica ao bulício e a residência portentosa hipotecada onde pernoita, K desloca-se, semanalmente de comboio, digamos, duma província britânica para o centro londrino; 2 horas perfazem este itinerário rotineiro. Consecutivamente, o senhor K experimentava o insuportável sufrágio destas viagens extasiantes: uma juventude leviana e balzaquiana, estrépitos, silvos e companheiros de lugar irrequietos e com tendência para o espamo fácil ou epilepsia, alternadamente. Ao cabo de alguns meses nesta digressão recalcitrante, o senhor K está pelas costuras de tanta incivilidade, e, eis que um frémito de iluminação, uma epifania aflora o seu pensamento molestado; habitualmente, obtia o impresso de viagem pelo serviço informatizado da rede ferroviária, processo que muito celebrava pela facilidade e eremitismo inerentes; ora, numa destas excursões, um rasgo de originalidade arrebata de forma perene o empreendedorismo de K; decide reservar, não apenas o seu lugar habitual na carruagem 22, lugar 125 no sentido do trânsito e à janela, bem como, o lugar contíguo. O senhor K fez assim os trajectos de ida e volta da jornada do dia posterior, de forma sobremaneira mais pacífica, lânguida e sossegada.

Esta insuspeita paz, adquirida somente à aturação de um gasto adicional não demasiadamente impossível, permite que K consiga pela primeira vez em copiosos meses de obstinação, trabalhar no curso do percurso, adiantando assim as tarefas desse dia. Ao cabo de algumas semanas, o leitor informado da perseverança, digamos, excêntrica de K, seria compelido a julgar e presumir que este estivesse em débil conjuntura financeira; contradigo-o, apressado e exegeta leitor, o senhor K, com o esforço adicional, a princípio pesaroso, de assegurar a viagem do seu outro velado, conseguiu fazer reverter para si ganhos extra com uma inusitada promoção por eficiência e rentabilidade; o bilhete excedente, diariamente emitido, lançado e nunca revisto pelo contínuo do vagão, começou, consequentemente, a tornar-se irrisório, pois K suplantáva-o com a hegemónica quantia de cumulativos ganhos e aumentos. Findo um ano, K, houve escalado do cargo de consultor sénior no seio da empresa para o bastião de vice-presidente do departamento de consultoria e gestão da mesma, triplicando o soldo mensal. Analisando, com propriedade empreendedora própria do seu posto, as possibilidades da sua pequena conquista burocrática, K enleia-se totalmente na repercussão deste engenho, evoluindo do modesto lugar geminado para os quatro emparelhados, meia carruagem, a carruagem in totto, até ao apogeu de todo o volume de lugares disponíveis. K descobre deste modo, um meuo económico de "adquirir" a solidão, apenas alojando vácuo e mais vácuo assistindo-o e aplicando-o de forma diplomática. K, comprovou que a misantropia e alienação dependem tanto da vontade do indivíduo como assim o dependem, a fome e vontade de estar no mundo.

Numa primeira e cabal reflexão, o leitor ripostará: Então porque não comprou K um jacto particular? Bom, digamos que o senhor K era um conservador e um amante do contexto ferroviário...


Guilherme Gomes, 14 Outubro, 2009

O som contínuo da chuva

Cai chuva do céu cinzento
Que não tem razão de ser
Até o meu pensamento
Tem chuva nele a escorrer.
Tenho uma grande tristeza
Acrescentada à que sinto.
Quero dizer-ma mas pesa
O quanto comigo minto.
Porque verdadeiramente
Não sei se estou triste ou não,
E a chuva cai levemente
(porque Verlaine consente)
dentro do meu coração.

(1930)

Fernando Pessoa

Um poema de um Poeta extraordinário, que me lembra o Outono que se aproxima.

(também em mim se instalou o espírito melancólico do Outono)

6.10.09

E também eu e você

Uma pequena reflexão sobre aqueles pequenos ensinamentos que nós dão em criança. Ensinamentos esses que também deverão comparecer na bíblia. Um deles diz: "Não julgues nínguem", diz que somos todos iguais aos olhos da sociedade, aos olhos de Deus, seja que Deus for. E portanto que devemo-nos amar e tratar o próximo com amor. Se assim o é, acho que esta música é capaz de resumir isto tudo e dar um verdadeiro ensimento.


Arnaldo Antunes - 2003

Saiba: todo mundo foi neném
Einstein, Freud e Platão também
Hitler, Bush e Sadam Hussein
Quem tem grana e quem não tem

Saiba: todo mundo teve infância
Maomé já foi criança
Arquimedes, Buda, Galileu
e também você e eu

Saiba: todo mundo teve medo
Mesmo que seja segredo
Nietzsche e Simone de Beauvoir
Fernandinho Beira-Mar

Saiba: todo mundo vai morrer
Presidente, general ou rei
Anglo-saxão ou muçulmano
Todo e qualquer ser humano

Saiba: todo mundo teve pai
Quem já foi e quem ainda vai
Lao Tsé Moisés Ramsés Pelé
Ghandi, Mike Tyson, Salomé

Saiba: todo mundo teve mãe
Índios, africanos e alemães
Nero, Che Guevara, Pinochet
e também eu e você

5.10.09

Fall

Quando se instala o espírito de Outono, esta música do Tiago Bettencourt já é um clássico.

Hoje, só por ser Outono, vou chamar-te meu amor
Contra as regras do que somos, vou chamar-te meu amor
Hoje só por ser diferente te encontrar

É tanto o fado contra nós
Mas nem por isso estamos sós
E embora fique tanto por contar
Hoje, só por ser Outono, vou...

3.10.09

Um sopro do coração






Vou organizar um golpe de estado ao coração e mandar abaixo aquele governo fascista que está cada vez mais rebelde. Mas onde estava eu com a cabeça quando deleguei o amor ao coração?
Porque é que são atribuídos os sentimentos a um órgão que apenas tem como função bombear o sangue? Se formos a ver, ao fim ao cabo, o coração de sentimentos não tem nada, usa apenas a força bruta para nos fazer viver, é apenas uma máquina geradora de vida.
O cérebro, esse sim, está responsável por todo o sistema complexo de sentimentos que o ser humano tem. E este órgão é responsável pelo envio das informações que vão delimitar ou alterar a função dos outros órgãos. E o coração sente, quando o cérebro sente.
Por isso, não sei porque é que dizem “estás no meu coração…”
As alterações de “humor do coração” são devidas a regulação de adrenalina no sangue, portanto ele está mesmo desprovido de qualquer tipo de sentimento, só se se considerar que as suas células pensam, pois bem, se pensarem, acho que é apenas para conseguirem contraírem-se todas ao mesmo tempo.